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Como o autismo do meu filho me ajudou a lidar melhor com a quarentena

Silvia Ruiz

27/03/2020 04h00

Arquivo pessoal

"Mas doutor, quando ele vai falar? Ele vai ter amigos? Vai ter namorada? Vai para a faculdade? Vai se casar?".

"Não tenho essas respostas para você. Neste momento, o melhor conselho que eu tenho para te dar é: não perca tempo projetando o futuro. Viva um dia de cada vez. Faça tudo que estiver ao seu alcance hoje, tome todas as medidas necessárias e torça pelo melhor. Mas não espere o que vai ser daqui a um mês, daqui a um ano. Ninguém sabe o que vai ser."

Esse diálogo aconteceu oito anos atrás. Lembro dele claramente como se tivesse sido ontem. Como me senti nessa hora, as lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto eu olhava para o meu filho de dois anos sentado na cadeira ao lado alheio a tudo que estava acontecendo ali. Foi assim que recebi do médico o diagnóstico de "suspeita de autismo" do meu caçula. No próxima quinta, dia 2 de abril, é Dia Mundial da Conscientização do autismo e por isso hoje eu estou falando desse tema fora do habitual do Ageless. Já contei aqui a história do autismo do meu filho.

Mas em tempos de quarentena e de tantas incertezas sobre o futuro, me lembrei como esse duro diagnóstico me ajudou a enfrentar momentos difíceis como este. A verdade é que naquele dia do tal diálogo, eu saí atordoada do consultório e com uma certa raiva do especialista. Como assim ele não tinha respostas para mim? Então quem poderia me dizer o que iria acontecer com o meu filho? Qual era afinal o prognóstico dele?

Passei os vários dias seguintes chorando e buscado respostas no Google, pesquisando tudo que podia sobre o assunto. E foi então que eu me dei conta: de fato não dava para saber o que seria do pequeno Tom nos próximos meses, como seria sua evolução, muito menos nos próximos anos. O autismo é uma das síndromes mais misteriosas que existem, cada autista é único, cada um evolui à sua maneira, alguns chegam a ter um quadro bem leve quando adultos, outros podem jamais pronunciar uma palavra ou ter retardo mental severo. A questão é que é impossível prever isso para uma criança aos dois anos como era o nosso caso.

Arquivo pessoal

Passada uma semana de luto eu percebi que de fato eu só tinha um caminho a seguir, que era adotar o conselho do médico: fazer tudo o que era possível da minha parte (intervenção precoce aumenta muita as chances de uma boa evolução no autismo), e viver um dia de cada vez. Essa era uma tarefa bem difícil para mim, que já era mãe de uma menina mais velha e estava acostumada a sempre querer ter o controle da situação na educação dos filhos. Me vi vulnerável, com medo, ansiosa, mas pela primeira vez na vida tive a clareza de que não teria como planejar o futuro.

Naquele momento eu virei uma chave. Entendi que a situação exigia o máximo da minha dedicação, com horas diárias de terapia, atividades complementares em casa, muito estudo e paciência. Muita paciência. Teria que fazer a minha parte e contar com o melhor. E esperar.

Nesses últimos dias, em meio a todo o tsunami que vivemos com a chegada do Coronavírus, percebi que aquele aprendizado que o autismo me trouxe anos atrás está me ajudando demais a lidar com a situação. Não, a gente nunca teve e nem nunca terá controle sobre o futuro, por mais que a gente ache que tenha. Todos os nossos planos, projeções e expectativas podem ser tirados de nós de um minuto para o outro. Um acidente, uma doença, uma morte na família, tantas coisas podem mudar o curso da nossa vida. Mas ainda assim a gente insiste viver pensando no amanhã. Não estou querendo dizer que não devemos nos planejar ou programar. Mas não podemos fazer nada além do que viver o dia de hoje e não passar a vida com a ansiedade do que vai ser amanhã. Ansiedade só torna tudo que já está ruim muito pior.

Achei que deveria compartilhar esse sentimento e o quanto a minha mudança de perspectiva me fez viver uma situação de extrema adversidade, como o diagnóstico de uma síndrome severa como o autismo, de maneira mais leve, menos ansiosa, menos estressante. Nesses últimos oito anos, temos tido dias mais difíceis (alguns bem difíceis), outros de extrema felicidade. Cada pequena evolução do nosso filho, a primeira frase, o primeiro "mamãe quero suco", o primeiro abraço espontâneo, tudo é celebrado no dia a dia. Um dia depois do outro. Hoje, responder todas aquelas perguntas que eu fiz para o médico não me importa mais. Não sei onde vai dar, mas vamos aproveitar e viver cada momento da jornada da melhor forma possível.

É essa mensagem que eu tenho a dar para todos nós neste momento tão complicado que estamos vivendo. Um dia após o outro. Vamos fazer o que está em nosso alcance porque a verdade é que não temos controle sobre nada. Por hora, a única coisa que podemos fazer é ficar em casa, tomar as medidas de proteção, ajudar o próximo como for possível.  Então vamos tentar fazer isso da melhor maneira. Feliz Dia Mundial da Conscientização do Autismo, meu filho Tom! Obrigada por me ensinar o verdadeiro significado das palavras coragem e amor.

Sobre Autora

Silvia Ruiz é jornalista e trabalha com comunicação digital e PR. Durante mais de 15 anos atuou na cobertura de saúde, bem-estar e estilo de vida. É apaixonada por alimentação natural, meditação e práticas holísticas. Mãe do Tom, do Gabriel e da Myra, tem bem mais de 40 anos e está tentando aprender a viver bem na própria pele em qualquer idade.

Sobre o blog

O que é envelhecer hoje? Este é um espaço com informações para a geração que tem mais de 40 e não abre mão de viver uma vida plena e, principalmente, saudável, independentemente da idade. Aqui não falamos em “anti-aging”, e, sim, em “healthy aging”. Dicas de alimentação, beleza, atividade física, carreira e estilo de vida para quem busca ser “ageless”.

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