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O que você precisa saber se faz uso de maconha após os 40 anos

Silvia Ruiz

01/11/2019 04h00

Crédito: iStock

Eu nunca fui fã de maconha, mas confesso que tive minha fase de baseados na adolescência. Não me fazia bem, me deixava paranoica e com sensação de pressão baixa. Meu consumo era mesmo muito mais pela tal necessidade de fazer parte do grupo do que por gosto. Hoje em dia, então, quem acompanha minha rotina no Instagram sabe que o mais perto que eu chego de uma erva é no meu suco verde matinal.

Mas nos últimos tempos tenho visto cada vez mais amigos de meia-idade recorrendo à cannabis como um recurso para relaxar depois de um dia de trabalho ou para uso recreacional nos finais de semana. E ainda tem aqueles que começaram a fumar na juventude e nunca mais pararam.

Não existem dados no Brasil que comprovem essa minha impressão de aumento do consumo, mas, nos EUA, por exemplo, uma pesquisa de 2016 do CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças) descobriu que hoje os pais de meia-idade têm mais probabilidade de fumar maconha do que seus filhos adolescentes. Apenas 7,4% dos americanos com idade entre 12 e 17 anos fumavam maconha regularmente em 2014, um declínio de 10% desde 2002. Mas 8% das pessoas de 35 a 44 anos usavam maconha regularmente em 2014, superando o uso entre adolescentes pela primeira vez desde pelo menos 2002. Nos EUA o uso regular de maconha entre os americanos de 45 a 54 anos aumentou quase 50%. Entre as idades de 55 a 64 anos, aumentou inacreditáveis 455%!

Segundo o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, coordenador do Programa de Orientação e Assistência a Dependentes da Unifesp, os estudos mais bem feitos no Brasil apontam que aproximadamente um milhão de pessoas fumam maconha regularmente no País, mas não se sabe quantas delas têm mais de 40. Mas, afinal, quais os riscos de seguir com o seu baseadinho depois de uma certa idade?

"Os estudos mostram que maconha em geral dá errado quando o início do consumo se dá na adolescência. Nos adultos, ela não traz tantos prejuízos, mas eles existem", diz o especialista, referindo-se aos efeitos nocivos para o cérebro. "Na verdade, a maconha foi muito diabolizada e há uma visão muito preconceituosa sobre ela, enquanto o consumo de álcool é muito mais prejudicial em todos os sentidos."

O médico diz que acaba de finalizar um dos maiores estudos já realizados no Brasil, com mais de 9 mil usuários da droga. No trabalho, os adultos que usam maconha apresentaram menos crises de ansiedade, menos depressão e melhor qualidade de vida do que os não usuários avaliados. É importante deixar claro que com o resultado do estudo não podemos dizer que fumar maconha previne esses problemas.

"Não é possível estabelecer uma relação de causa e efeito. Pode ser que o indivíduo que está muito bem com a vida resolva fumar maconha e não que a maconha tenha provocado esse efeito", explica o médico.

Então quer dizer que o baseado está liberado para os quarentões e cinquentões? Depende. "Usuário de fim de semana é bem diferente de um usuário diário. A maconha vai deixar esses indivíduos que a usam regularmente menos perseverantes, vai afetar a memória e pode trazer problemas cognitivos, e isso é independente da idade. O uso diário vai comprometer, sim, a capacidade cerebral", diz Silveira.

Além disso, boa parte da maconha consumida no Brasil é a chamada "prensada paraguaia". Uma maconha que é traficada do Paraguai para o País e é de má qualidade, cheia de aditivos químicos que podem afetar sua saúde de maneira inestimável. "E não sabemos quais os princípios ativos que ela tem, é algo completamente descontrolado."  Isso para mim já seria motivo suficiente para ficar longe da droga que neste caso é literalmente um lixo!

Quem começou a usar maconha depois de velho pode se viciar?

"Sim, o vício pode acontecer, a taxa de risco é de 9% de ficar dependente. Para o álcool, essa taxa chega a 15%. Então, o risco é mais baixo, mas ele existe. "

É por conta desse uso descontrolado e sem qualidade que Silveira defende a legalização como meio de evitar os danos maiores causados pelo crime em torno da maconha proibida. "Fora do Brasil onde a droga foi legalizada e segue um esquema de regulação estatal, além de acabar com o tráfico existe um controle de qualidade da cannabis. É possível saber a procedência do que se está usando, optar por variantes que acalmem ou que deixem a pessoa mais acordada, por exemplo, e existe um controle da dose."

Portanto, saiba que, ao escolher acender seu baseado depois de uma certa idade, seu pulmão vai sofrer ainda mais com os aditivos desconhecidos da maconha que não se sabe a procedência. O cérebro, que já pena com a perda natural da memória com a idade, vai ficar ainda mais esquecido. Então, é bom refletir um pouco sobre o que está colocando para dentro do seu corpo.  De qualquer maneira, como adultos, já está mais do que na hora de discutir sem preconceitos e com seriedade a legalização como forma de evitar mais danos do que o necessário para uma droga que faz muito menos mal do que o álcool.

Sobre Autora

Silvia Ruiz é jornalista e trabalha com comunicação digital e PR. Durante mais de 15 anos atuou na cobertura de saúde, bem-estar e estilo de vida. É apaixonada por alimentação natural, meditação e práticas holísticas. Mãe do Tom, do Gabriel e da Myra, tem bem mais de 40 anos e está tentando aprender a viver bem na própria pele em qualquer idade.

Sobre o blog

O que é envelhecer hoje? Este é um espaço com informações para a geração que tem mais de 40 e não abre mão de viver uma vida plena e, principalmente, saudável, independentemente da idade. Aqui não falamos em “anti-aging”, e, sim, em “healthy aging”. Dicas de alimentação, beleza, atividade física, carreira e estilo de vida para quem busca ser “ageless”.

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